"Com a domesticação, a cabra adquiriu o amor pelo homem que a trata, pela criança com quem brinca e que, não raro, amamenta com solicitude; conservou do animal selvagem, o gosto pela vida vagabunda, pelas correrias, saltos e lutas; guardou a insensibilidade à vertigem, preferindo as montanhas à planície e os lugares seguros das margens dos abismos" (Miranda do Vale, 1949).

 

As cabras não são um animal qualquer. Amantes da liberdade calcorreiam a serra, entre as fragas e declives abruptos, ávidas de alimento e ar fresco. Redistribuem a matéria orgânica pelos solos esqueléticos, mantêm trilhos e limpam a montanha.

 

As nossas cabras são tratadas com a dignidade que merecem e nós lhes devemos. Este respeito é a base das nossas decisões na lide com estes maravilhosos animais. Alimentação natural, blocos de sal, água fresca, feno e abrigo sempre disponíveis na corte e pastoreio na montanha, todo o dia no Verão (12 horas) e sempre que clima o permite nas outras estações (raramente menos de 5 horas). 

 

O rebanho conta com cerca de 100 fêmeas das raças autóctones bravia, serrana (ecótipo transmontano) e alguns cruzamentos bravia-serrana-galega. E com 3 machos reprodutores de raças autóctones, um bravio, um serrano e um galego.

 

A certificação IGP (Indicação Geográfica Protegida) dos cabritos como Cabrito das Terras Altas do Minho será um passo incontornável uma vez que gerimos a criação dentro dos requisitos exigidos.

As cabras e a sustentabilidade

Porquê?

Porquê adotar?

«Milhões de pessoas que vivem fora das zonas de montanha beneficiam dos serviços de ecossistema por elas fornecidos, nomeadamente: 
1) metade da população mundial depende das montanhas para o aprovisionamento de água doce, 
2) as montanhas são centros de diversidade biológica e cultural, 
3) são um reservatório de diversidade genética agrícola que é activamente mantida pelas populações que aí praticam uma agricultura de subsistência, 
4) são o refúgio de algumas espécies ameaçadas de animais e plantas, e 
5) oferecem paisagens únicas e imponentes a que se associam oportunidades de turismo e recreação (Nordregio, 2004;WRI, 2002).»

in Pereira, E. & Queiroz, C., 2009

 

 

Quando adota uma cabra garante:

1) Os serviços ambientais e culturais proporcionados pelas zonas de montanha; (Ver texto acima)

2) Os serviços ambientais e culturais associados à gestão sustentável da paisagem ímpar de Sistelo; (Ver Contrato de adoção)

3) Respeito pelas cabras e bem estar do rebanho; (Ver Contrato de adoção)

4) Uma relação de proximidade com um pequeno produtor que:
     a) permite usufruir de preços atractivos, para um produto de excelência cuja produção poderá ser acompanhada online;
     
b) permite usufruir da experiência de "Pastor por um dia";
     c) garante a sustentabilidade económica da agricultura familiar praticada, diminuindo assim a incerteza sobre a venda de cabritos resultantes deste modo de produção;
     d) dinamiza a economia local e possibilita a fixação de jovens numa região onde desertificação social é uma realidade.

 

Porquê Sistelo?

“O abandono progressivo das práticas agro-pastoris tradicionais em Sistelo, nos últimos 50 anos, coloca em causa a manutenção dos serviços locais de ecossistema que dependem da intervenção humana.” (Pereira, E. & Queiroz, C., 2009)
Sistelo é uma freguesia que inclui várias aldeias, próximas das nascentes do Rio Vez, com território integrado no Parque Nacional Peneda-Gerês (Classificado como Reserva Mundial da Biosfera pela UNESCO).


"Devido a esta localização única,
84% da área da freguesia de Sistelo (toda a área a Este do rio Vez) foi recentemente incluída no regime de protecção da Rede Natura 2000 – Zona de Protecção Especial «Serra do Gerês» e Sítio de Importância Comunitária «Serras 
da Peneda-Gerês»" (Pereira, E. & Queiroz, C., 2009) Com mais de 2000 ha no PNPG, integra também a zona tampão da Reserva da Biosfera Gerês-Xurês.

Nos censos de 2011 as 6 aldeias de Sistelo totalizavam 273 habitantes. A história de Sistelo está intimamente associada à pastorícia. Uma história de transumâncias sazonais entre brandas (hoje quase todas abandonadas) e lugares. Uma história de raças autóctones adaptadas aos rigores de uma região acidentada e de clima extremado. Uma história que proporcionou uma paisagem fruto de fortes sinergias entre o Homem e a Natureza.

“A paisagem de Sistelo, moldada pela intervenção humana, reflecte a adaptação de uma comunidade rural ao território de montanha.” (Pereira, E. & Queiroz, C., 2009)

“No efectivo pecuário destacam-se os bovinos, onde predominam as raças autóctones Barrosã e Cachena, seguido de ovinos de raça Bordaleira de Entre Douro e Minho, e dos equídeos – que totalizam respectivamente 696, 234 e 130 animais. Os caprinos têm actualmente uma expressão muito reduzida." (INE,2009) As "burras" garranas, as vacas cachenas, as ovelhas churras do Minho e as cabras bravias todas de pequeno porte no entanto portadoras de uma rusticidade surpreendente, são o resultado de uma relação milenar entre Homem e montanha e por isso aproveitam os recursos locais como nenhuma outra raça. Mas hoje, a rés (ovelhas e cabras) escasseia, fruto da desertificação social acelerada a partir de meados do século XX, foram as primeiras vítimas do abandono. A sua falta sente-se na montanha, os ciclos alteraram-se e os incêndios são ameaças sempre latentes.

"Situada numa zona de inestimável valor ecológico, a freguesia de Sistelo apresenta uma enorme diversidade de habitats que compreende as galerias ripícolas nas margens do rio Vez, zonas agrícolas, floresta de coníferas maioritariamente usada para exploração de madeira, bosques nativos de caducifolias e matos de altitude. Estes habitats albergam um grande número de espécies animais e vegetais que fazem de Sistelo uma zona detentora de uma singular riqueza faunística e florística.

Das espécies animais presentes na região destacam-se algumas particularmente emblemáticas como é o caso da lontra (Lutra lutra), a geneta (Genetta genetta), a cobra-de-água viperina (Natrix maura), a toupeira-de-água (Galemys pyrenaicus) e o lagarto-de-água (Lacerta schreiberi) nas zonas ripícolas. Nas áreas agrícolas destacam-se a perdiz-cinzenta (Perdix perdix), o sardão (Lacerta lepida) e a toupeira-cega (Talpa caeca). O corço (Capreolus capreolus), o lobo (Canis lupus), a raposa (Vulpes vulpes), a águia-real (Aquila chrysaetos), a águia-de-asa-redonda (Buteo buteo), o bufo-real (Bubo bubo) e a víbora-cornuda (Vipera latastei) ocorrem nas zonas de floresta e matos de altitude. Várias destas espécies possuem o estatuto de «ameaçadas» (Cabral et al., 2005).

No que respeita à flora, destacam-se as manchas de carvalho alvarinho (Quercus robur) nas margens do rio Vez ou por entre as extensões de floresta plantada de pinheiro-bravo (Pinus pinaster). Nos matos de altitude o tojo-europeu (Ulex europaeus subsp. latebracteatus), o tojo-menor (Ulex minor) e a urze (Erica sp. pl.) são espécies dominantes na vegetação (ICN, 2006a). 

A flora de Sistelo inclui também uma imensa variedade de espécies com usos culinários e medicinais, das quais se destacam a cidreira (Melissa oficinalis), a nêveda (Calamintha baetica), a hortelã (Mentha sp.), o funcho (Foeniculum vulgare subsp. piperitum) e o hipericão (Hypericum perforatum) entre outras." in Pereira, E. & Queiroz, C., 2009

Porquê as cabras?

A maravilhosa paisagem de Sistelo está intimamente ligada aos seus socalcos, à sua arquitetura popular serrana, à enorme biodiversidade das suas áreas naturais e à criação de raças autóctones.

A conjugação destes valores proporciona um mosaico singular capaz de envolver e arrebatar qualquer um.

A estreita relação entre as actividades agro-silvopastoris e esta paisagem, e os serviços de ecossistema que dela resultam, está ameaçada pela galopante desertificação humana e consequente abandono da pastorícia, do qual as cabras foram as primeiras vítimas. 

 
 

Quando apoia a criação de cabras em Sistelo, contribui para a gestão sustentável desta paisagem através da:

a)Prevenção e combate a incêndios florestais.  

(1) Limpeza/abertura de trilhos/caminhos pelo pastoreio - corta fogos verticais;

(2) Separação entre estratos arbustivo/arbóreo herbáceo/arbustivo através da condução de piornais e giestais pelo pastoreio e pelo pastor – corta fogos horizontais;

(3) Redução da carga combustível vegetal pelo pastoreio e pela roçagem de matos para cama para o estábulo – diminuição da intensidade de possíveis incêndios;

(4) Vigilância de ignições e comunicação ao serviço de emergências (117).

b)Gestão/Manutenção da biodiversidade doméstica.

(1) Manutenção de raças autóctones de cabras: Bravia e Serrana;

(2) O pastoreio preferencial de arbustivas pelas cabras favorece o desenvolvimento de pastos de herbáceas apreciados por ovelhas, vacas e garranos.

c)Gestão/Aumento da biodiversidade natural.

(1) O tipo de pastoreio prospectivo realizado pelas cabras, guiado pela sazonalidade da suculência dos matos e pastagens, leva a aumentos da biodiversidade vegetal e à heterogeneização da paisagem;

(2) A criação e manutenção de clareiras com pastagens herbáceas biodiversas é favorável a inúmeros mamíferos e aves ameaçadas e com estatuto de protecção;

(3) No Alto Minho, 90% da dieta do Lobo Ibérico provém de gado doméstico.

d)Aumento da fertilidade do solo, redistribuição de matéria orgânica pela serra e sequestro de CO2.  

O pastoreio livre do rebanho proporciona a distribuição de excrementos pelos solos da serra, pobres em matéria orgânica, fertilizando-os e aumentando a produtividade. Simultaneamente sequestra carbono nos solos reduzindo a sua concentração na atmosfera.

Pastoreio de baixa-intensidade com herbívoros domésticos: uma ferramenta para manter e restaurar a diversidade vegetal na Europa temperada

Low-intensity grazing with domestic herbivores: A tool for maintaining and restoring plant diversityin temperate Europe

Rosenthal, G., Schrautzer, J. & Eichberg, C. (2012)

Resumo

O declinio continuo da biodiversidade em algumas paisagens europeias levou recentemente à (re)implementação de sistemas de pastoreio de baixa intensidade como uma alternativa a práticas de conservação mais onerosas. Esta abordagem tem pretendido desenvolver complexos de habitats e aumentar a diversidade vegetal à escala local e à escala da paisagem.

Os principais objectivos desta revisão passam por compreender os processos através dos quais os grandes herbívoros (vacas, cavalos, ovelhas, cabras, porcos) desempenham um papel chave que afecta a diversidade vegetal e fornecer um enquadramento para investigação e práticas de conservação futuras. A bibliografia revista aborda uma grande amplitude de tipos de ecossistemas em várias regiões da Europa com enfase nos recentes resultados recolhidos na Europa central.

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FILOSOFIA DA PAISAGEM Uma Antologia

FILOSOFIA DA PAISAGEM Uma Antologia

http://filarqpais.fl.ul.pt/index_ficheiros/Antologia_1-9.pdf

Swot analysis of goat rearing towards its sustainability: Case study with Bravia goat breed

Swot analysis of goat rearing towards its sustainability: Case study with
Bravia goat breed

http://om.ciheam.org/om/pdf/a100/00801502.pdf

Utilización de caprinos para el control de vegetación indeseable

Utilización de caprinos para el control de vegetación indeseable

http://www.produccion-animal.com.ar/produccion_caprina/produccion_caprina/108-ramoneo.pdf

La prevención de incendios forestales mediante pastoreo controlado: el estado del arte en Andalucía

La prevención de incendios forestales
mediante pastoreo controlado: el estado del
arte en Andalucía

http://digital.csic.es/bitstream/10261/42910/1/Ruiz%20Mirazo%20Estado%20del%20Arte.pdf

Sistelo: Um Estudo Participativo numa Freguesia de Montanha

Sistelo: Um Estudo Participativo numa Freguesia de Montanha

http://www.ecossistemas.org/ficheiros/livro/Capitulo_17.pdf

 

Quais as características das cabras que as tornam especialmente indicadas como ferramenta de controlo de vegetação?

1ª Diversidade da dieta: consomem uma extraordinária variedade de plantas e preferem estratos arbustivos; são resistentes a muitas fitotoxinas e por isso capazes de pastar muitas plantas que vacas e ovelhas não utilizam.

2ª Consumem plantas indesejadas enquanto produzem carne de excelente qualidade.

3ª Ajudam na mobilização de fitonutrientes sequestrados nas espécies lenhosas – Escobar et al. (1998) observaram que numa mata de Quercus havardii pastada durante 3 anos com cabras, o N disponível aumentou de 1.1 para 23.3 Kg/ha, o P disponível aumentou de 5.5 para 25.5 Kg/ha e K disponível aumentou de 133 para 348 Kg/ha – níveis importantes para os fenos altos autóctones, apreciados por vacas e ovelhas.

4ª As cabras consomem preferencialmente caules floríferos e consomem as sementes em estados imaturos. As sementes não resistem ao seu trato digestivo e por isso controlam a propagação por semente dos arbustos consumidos.

Outra vantagem é o controlo de carraças na montanha pelo consumo e redução do seu habitat.

Artigo original: http://www.uky.edu/Ag/AnimalSciences/goats/pubs/s.hart%20overview%20veg.%20management.pdf

Silvicultura com pastoreio de cabras para a prevenção de fogos florestais no Parque Natural de Doñana

Resumo: Foram monitorizados os efeitos do pastoreio de cabras no sub-coberto florestal de um pinhal no Parque Natural de Doñana durante 24 meses sem aplicação de métodos destrutivos. Depois dos 2 anos o biovolume arbustivo diminuiu 28%. A composição florística (biodiversidade) não mostrou diferenças entre áreas pastadas e não pastadas, mas a abundância relativa de espécies (diversidade) foi afetada positivamente. As espécies da família das Cistaceae experienciaram a maior redução de biovolume. As diferentes respostas das arbustivas a este pastoreio podem ser usadas como ferramenta efetiva para o controlo de arbustos em áreas florestais, de forma a conseguir uma redução da vegetação que contribua para uma redução progressiva do risco de incêndio.

 

Artigo original: http://ressources.ciheam.org/om/pdf/a100/00801500.pdf

(Mancilla-Leytón, J.M. & Martín Vicente, A., 2011)

Pastoreio nos Parques Naturais de Andaluzia:Uma ferramenta para a prevenção de incêndios e diversificação dos ecossistemas

Resumo: O Departamento de Ambiente do Governo da Andaluzia (Espanha) tomou recentemente a responsabilidade de integrar o pastoreio de gado extensivo como uma ferramenta para a prevenção de incêndios em vários Parques Naturais da região.

Com a participação de 19 pastores, 910 ha de corta-fogos são mantidos por rebanhos de ovinos e caprinos. O seu efeito é monitorizado e é realizada investigação específica para ajustar o sistema. Em troca do serviço prestado, os pastores são pagos proporcionalmente à superfície de corta-fogos que mantêm e ao resultado de controle biomassa que atingem. Este é um rendimento extra que direcciona os seus sistemas de produção para actividades sustentáveis integradas na conservação dos recursos da floresta.

Por outro lado, as plantações florestais extensas e deficientemente geridas de pinheiro e carvalho são comunidades que precisam de acções de diversificação (naturalização). Pastoreio intenso - por animais domésticos ou herbívoros selvagens - sempre esteve presente nas pastagens e florestas mediterrâneas, contribuindo para a sua diversidade e dinâmica. Por isso, o pastoreio de gado é hoje uma ferramenta que pode colaborar eficientemente com outras iniciativas na naturalização de muitos ecossistemas florestais simplificados.

Tanto a prevenção de incêndios como a naturalização (diversificação) são questões de gestão florestal fundamentais no século 21, e os criadores de gado têm a oportunidade de colaborarem, de melhorarem os seus sistemas de produção extensivos e de beneficiarem de ganhos sociais e económicos resultantes do reconhecimento do papel da sua actividade.

 

Artigo completo:http://digital.csic.es/bitstream/10261/42929/1/OPTIONS_pontedelima_descargado.pdf

(Ruiz-Mirazo et al,2009)

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